Clérigo anglicano, evangelista incansável e organizador de um dos maiores avivamentos da história cristã. Pregou mais de 40 mil sermões e percorreu cerca de 400 mil quilômetros a cavalo, anunciando a graça de Deus a todos.
Senti meu coração estranhamente aquecido.Diário de John Wesley · 24 de maio de 1738
Como um pastor anglicano do século XVIII, sério e disciplinado, tornou-se o instrumento de um avivamento que atravessou oceanos e séculos? A resposta está numa vida marcada pela busca de Deus, por um coração transformado pela graça e por uma obediência metódica ao chamado. Percorra abaixo as etapas dessa jornada.
John Wesley nasceu em 17 de junho de 1703, na reitoria de Epworth, em Lincolnshire, décimo quinto filho do reverendo Samuel Wesley e de Susanna Wesley. Foi Susanna, mulher de rara piedade e disciplina, quem moldou nos filhos o amor às Escrituras e o hábito da oração metódica.
Em fevereiro de 1709, um incêndio consumiu a reitoria. O menino John, então com cinco anos, foi resgatado de uma janela do andar superior no último instante. A imagem do “tição arrebatado do fogo” (Zc 3.2) acompanhou-o a vida toda como sinal de que fora poupado para um propósito.
Depois de estudar em Charterhouse, em Londres, Wesley ingressou em Christ Church, Oxford, em 1720. Ordenado diácono em 1725 e eleito fellow do Lincoln College em 1726, dedicou-se ao estudo e ao ensino.
Junto de seu irmão Charles e de alguns amigos, formou um pequeno grupo de disciplina espiritual — comunhão frequente, jejum, estudo das Escrituras e visita a presos e enfermos. Os colegas os apelidaram, com escárnio, de “metodistas”, pela regularidade metódica de sua devoção. O apelido pegou; o método permaneceu.
Em 1735, John e Charles embarcaram para a colônia da Geórgia, na América, como capelães e missionários. A empreitada frustrou-se: Wesley voltou desanimado, ciente de que lhe faltava a certeza da própria salvação.
No mar, porém, algo o marcou. Durante uma tempestade violenta, enquanto muitos entravam em pânico, um grupo de morávios cantava tranquilo, sem temor da morte. Wesley reconheceu naquela serenidade uma fé que ainda não possuía — e passou a buscá-la de todo o coração.
Na noite de 24 de maio de 1738, quase contra a vontade, Wesley participou de uma reunião numa casa da Rua Aldersgate, em Londres. Enquanto liam o prefácio de Lutero à Epístola aos Romanos, sua convicção intelectual tornou-se experiência viva.
Ele escreveu no diário: “Senti meu coração estranhamente aquecido. Senti que confiava em Cristo, somente em Cristo, para a salvação; e foi-me dada a certeza de que ele havia tirado os meus pecados”. Ali a justificação pela fé deixou de ser doutrina e passou a ser vida (Rm 5.1; Ef 2.8–9).
Barrado em muitos púlpitos por causa de seu entusiasmo evangelístico, Wesley aceitou, em 1739, o convite de George Whitefield para pregar ao ar livre, em Bristol. Confessou a princípio o incômodo, mas rendeu-se: “Consenti em ser ainda mais vil”, e anunciou o evangelho a mineiros e operários que jamais entrariam numa igreja.
As multidões vinham aos milhares. Vidas eram transformadas, e o avivamento se espalhava. Wesley tornou-se um pregador itinerante por mais de cinquenta anos, levando a mensagem da graça a cada vilarejo da Inglaterra (Mc 16.15).
Wesley não queria fundar uma nova igreja; queria renovar a Igreja da Inglaterra por dentro. Mas o crescimento exigiu estrutura. Ele organizou os convertidos em sociedades, subdivididas em classes e bandas, pequenos grupos de mútuo cuidado, prestação de contas e crescimento na santidade.
Diante da escassez de clérigos, valeu-se de pregadores leigos e de conferências anuais para pastorear o movimento. Construiu a New Room, em Bristol (1739), e a Capela de City Road, em Londres (1778). Em 1784, ordenou obreiros para a América, dando origem à Igreja Metodista independente.
Nenhum retrato de John estaria completo sem Charles Wesley. Companheiro de Oxford, da Geórgia e do avivamento, Charles deu voz à teologia do movimento em mais de seis mil hinos, muitos deles cantados até hoje.
Se John pregava a graça, Charles a fazia cantar. Hinos como “Ó mil línguas” e “Cristo já ressuscitou” ensinaram doutrina ao povo pela melodia, provando que o coração aquecido também precisa de lábios que louvem (Cl 3.16).
Wesley pregou e viajou até quase o fim. Em fevereiro de 1791, já com 87 anos, pregou seu último sermão. Faleceu em 2 de março de 1791, cercado de amigos, entoando louvores.
Suas palavras finais tornaram-se um testemunho de toda a sua vida: “O melhor de tudo é que Deus está conosco.” Deixou atrás de si não riquezas, mas dezenas de milhares de metodistas, uma Inglaterra transformada e um método de discipulado que atravessaria o mundo (2Tm 4.7).
Faze todo o bem que puderes, a todos que puderes, enquanto puderes.Atribuído a John Wesley
As datas que marcaram a vida de Wesley e o nascimento do movimento metodista.
Nasce em 17 de junho, na reitoria de Epworth, Lincolnshire.
Resgatado das chamas aos cinco anos — “um tição arrebatado do fogo”.
Formação acadêmica e início da vocação ao ministério.
Ordenado diácono e eleito fellow do Lincoln College.
Assume a liderança do grupo apelidado de “metodistas”.
Serve na América; encontra os morávios e busca a certeza da fé.
24 de maio: o coração “estranhamente aquecido” — a conversão evangélica.
Começa a pregar nos campos; funda a New Room, em Bristol.
Reúne pregadores para organizar a obra metodista.
Inaugura, em Londres, a “catedral-mãe” do metodismo.
Envia obreiros; nasce a Igreja Metodista independente.
Morre em 2 de março, em Londres: “O melhor de tudo é que Deus está conosco”.
A pregação de Wesley não era mero entusiasmo: tinha espinha dorsal teológica. Eis alguns dos seus grandes temas, que continuam a nutrir a fé arminiana-wesleyana.
Deus vai adiante de nós. Antes mesmo de o buscarmos, a graça já opera, despertando a consciência e capacitando a resposta. Ninguém é salvo por mérito próprio, mas todos são convidados e habilitados a crer (Jo 1.9; Tt 2.11).
Somos aceitos por Deus não por obras, mas pela fé em Cristo. Foi a redescoberta viva dessa verdade, em Aldersgate, que incendiou todo o ministério de Wesley (Rm 3.28; Ef 2.8–9).
A fé produz vida nova. O crente pode ter a certeza da filiação divina pelo testemunho interior do Espírito, que confirma em nosso coração que somos filhos de Deus (Rm 8.14–17).
A graça que perdoa também transforma. Wesley pregou a busca de um amor pleno a Deus e ao próximo — a santidade de coração e de vida como alvo real do cristão (1Ts 5.23; Hb 6.1; Mt 5.48).
Fiel à tradição arminiana, Wesley proclamou que Cristo morreu por todos e que a salvação, embora dependa inteiramente da graça, é oferecida a cada pessoa e recebida pela fé (1Tm 2.4; Tt 2.11).
“Não há santidade senão a santidade social.” A fé verdadeira floresce em amor concreto: cuidado dos pobres, dos presos e dos doentes, educação e combate à escravidão (Tg 2.17; Mt 25.40).
Retratos, monumentos e lugares que preservam a memória de John Wesley. Clique para ampliar.
Ditos que sintetizam a fé, o zelo e o coração pastoral de Wesley.
“O mundo é a minha paróquia.”
Sobre o alcance do evangelho“Ateia fogo em ti mesmo, e o povo virá ver-te arder.”
Atribuído a Wesley“Faze todo o bem que puderes, por todos os meios que puderes, a todos que puderes.”
Regra de vida“O melhor de tudo é que Deus está conosco.”
Últimas palavras, 1791“Não temo nada senão o pecado.”
Sobre a santidade“Dá-me cem homens que temam somente o pecado e desejem somente a Deus, e abalarei o mundo.”
Atribuído a WesleyWesley morreu como filho da Igreja da Inglaterra, mas deixou um movimento que se tornaria uma das maiores famílias do cristianismo mundial. Do metodismo brotaram igrejas em todos os continentes — entre elas, no Brasil, a Igreja Metodista Livre e tantas outras tradições de santidade.
Seu legado é duplo: a paixão por almas, que levou o evangelho a quem estava longe; e o cuidado com a santidade, que uniu conversão e discipulado, fé e obras de misericórdia. Wesley nos lembra que o coração aquecido pela graça não descansa: ele arde para servir (Gl 5.6).
Que a sua história desperte em nós a mesma busca — não por método apenas, mas pelo Deus vivo que salva, santifica e envia.